EDITORIAL

É função da Instituição oferecer um lugar privilegiado de escuta ao processo de formação zelando pelo tripé que a sustenta. Ousemos nos perguntar: esta afirmação vem a implicar um pertencimento à Instituição em algum momento da formação? Afinal, não é necessário ser membro para participar dos espaços oferecidos pela Biblioteca Freudiana de Curitiba. Também a apresentação de trabalhos, das elaborações da teoria transpassadas pelo percurso da análise individual e supervisão clínica não é exclusiva a membros: a escuta se coloca a todos que se autorizarem da palavra.

O inconsciente não se ensina, é uma experiência do real passível de ser transmitida. Reconhecer a importância das teorizações de Lacan ou adotar sessões de tempo variável, não são estes os índices da assunção das questões éticas implicadas na condução de um tratamento. Assim, o pertencimento formal à Instituição não é garantia da formação.

Em seu seminário “O avesso da psicanálise” Lacan formula quatro discursos que fazem laço social, mas alude a um quinto que não o faz: o discurso do capitalista. Tomemos esta senda para refletir sobre a questão acima colocada. Participar de atividades avulsas oferecidas pela Instituição pode ser um caminho apontado pelo desejo singular, mas pode também vir a caracterizar a mera busca de conhecimento: um ‘curso’ ou seminário em cada lugar conforme a conveniência. Esta prática, tomada como modus operandi, não deixa de evocar o discurso do capitalista. Neste o sujeito é apagado diante dos objetos acessíveis a prometer uma satisfação ‘garantida’ ao sujeito e o saber é reduzido à mercadoria: circula-se em um mercado de saber.

Em sua entrevista à televisão francesa em 1973 Lacan afirma: “Quanto mais somos santos mais rimos, é meu princípio, ou seja, é a saída do discurso capitalista - , o que não constituirá progresso se for somente para alguns”. O santo, aqui, é o psicanalista no discurso do psicanalista, único discurso que dá lugar de sujeito ao outro. O discurso capitalista nega o mal estar na civilização enquanto a psicanálise o afirma irredutível. Seria demasiado esperar que em uma instituição psicanalítica a ética predominante seja a do discurso do psicanalista, único a possibilitar a emergência do sujeito?

A Instituição garante que um analista depende de sua formação, mas como Lacan nos afirma na “Proposição de 9 de outubro de 1967”: “E o analista pode querer esta garantia, o que, por conseguinte, só faz ir além: tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da própria experiência”.